quarta-feira, 13 de maio de 2009

Karen,

Eu acho que você tocou no ponto principal da questão, ou mais precisamente no ponto inicial do raciocínio de quem quer trabalhar com a noção de prototipicalidade – ou prototipicidade, como está no texto da Priscilla sobre status informacional. O que a análise dos advérbios propõe é a idéia de existem advérbios prototípicos (que apresentam um conjunto de atributos mais básicos dessa categoria) e, por exemplo, adjetivos prototípicos (que também apresentam um conjunto de atributos mais básicos, que marcam essa categoria; alguns diferenciando-a exatamente da categoria dos advérbios, outras, de outras classes de palavras). Na medida em que os representantes de cada uma dessas categorias vão perdendo esses atributos, começam a se aproximar funcionalmente da outra classe.
É o caso dos adjetivos adverbializados, que você citou: têm forma de adjetivo, mas permanecem invariáveis (marca de advérbios prototípicos). É também o caso de meio/meia (Ela está meia cansada). É um advérbio, porque modifica o adjetivo cansado, mas concorda com esse adjetivo, assumindo um comportamento típico de modificadores adjetivos. Como tratar esses casos?
A minha resposta, por enquanto, é: como elementos que flutuam em sua trajetória, orbitando próximos aos usos prototípicos dessas classes, que, por serem prototípicos, são mais facilmente identificáveis. Assim, os usos prototípicos parecem exercer uma força gravitacional de natureza funcional sobre os não prototípicos, fazendo os usuários da língua os traga para perto do valor dos prototípicos, identificando-os como membros da mesma classe. Sendo que, quanto mais no meio das duas classes ele está, mais difícil é identificá-lo como uma ou outra das classes envolvidas no processo.
Mas a questão mais importante nesse caso é que essa possibilidade de confusão entre duas classes só é possível porque existe alguma semelhança, alguma relação de proximidade de algum tipo entre elas. O problema é que a classe dos advérbios pode apresentar problemas de fronteira com tipos muito diferentes de classes:

a) Adjetivos (como vimos);
b) substantivos (como no caso passar bem em que bem pode ser substantivo ou advérbio);
c) pronomes (como em comer muito, que tudo pode ser um pronome indefinido com função de objeto direto, ou como intensificador);
d) com conjunções (como ocorre com consequentemente que tem valor intermediário entre advérbio e conjunção),
e) entre outras classes.

Se algumas dessas classes são tão distintas entre si e ainda podem se confundir, tendo que ser identificadas pelos usuários por meio dos usos prototípicos que exercem sobre eles a força gravitacional funcional puxando-os pra si, significa que os atributos relacionados às diferentes classes não podem ser vistos como marcas puras e descontextualizadas das categorias, mas como traços que emergem dos contextos em que são empregados. E mais, toda essa organização das classes é dinâmica. Isso significa que o que está no centro de um protótipo pode mudar com o tempo ser diferente em línguas distintas. De acordo cm Traugott e Dasher (2005), essa possibilidade de diferença na organização estrutural dos protótipos tem de ser considerada em qualquer análise de dados diacrônicos ou translingüísticos quando se quer observar a semântica ou mudança semântica.

Ou seja, a semelhança ou a proximidade funcional entre as categorias emerge dos contextos em que elas ocorrem. Fica patente, então que não categorias meramente lexicais, mas elementos de estrutura maior, que poderemos chamar de construção, que implica necessariamente contextos morfossintático e pragmático-discursivos específicos.
É nesse contexto que podemos pensar noções como gramaticalização e lexicalização. São processos fazem os elementos lingüísticos deslizarem para valores mais próximos, tanto do ponto de vista formal como semantico-funcional. É claro que a freqüência desses elementos é fundamental nesse processo, oo que nos leva à interessante definição de Thompson e Hopper; (2001: 48):
“Grammar is a name for the adaptative, complex, highly interrelated, and multiply categorized sets of recurrent regularities that arrive form doing the communicative work humans do”.


Mário

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