sexta-feira, 17 de abril de 2009

ADVÉRBIOS E PROTOTIPICALIDADE

Os advérbios são muitas vezes vistos com uma categoria difícil de se definir, que engloba um conjunto de subtipos (que, por sua vez, englobam um conjunto de itens) inteiramente diferentes, e que, por isso, não poderiam, em termos efetivos,ser arrolados como uma única categoria. Muitos autores, embora não façam essa afirmação, questionam os critérios definidores da categoria, argumentando que não há um atributo que se estenda a todas as ocorrências de advérbios.
É o que ocorre com o critério da invariabilidade. Raemdonck (2005), por exemplo, chama atenção para alguns casos em que a invariabilidade pode não ocorrer, caracterizando esse critério de identificação como não suficiente e não necessário, acabando por descartá-lo como um atributo definidor da classe dos advérbios.
Um dos casos apresentados pelo autor é o que caracteriza certos adjetivos compostos franceses, como des jumelles nouveau-neés e dês vins nouvaeu-percés, o elemento nouveau tem valor adverbial, por se referir a um particípio passado, e permanece invariável. Entretanto, o autor registra a construção des personnes nouvelles venues, que indica, que, mesmo nesses casos, há uma grande tentação de fazer concordância, flexionando o advérbio. Caso semelhante pode ser visto com o item português meio, em contextos como ela está meia cansada. Segundo Barreto (1980), o rigor gramatical não admitiria um adjetivo modificando outro, devendo o determinante assumir forma de advérbio, permanecendo invariável.
Em outras palavras, temos de levar em conta que nenhum atributo particular – como a invariabilidade dos advérbios, por exemplo – é essencial para distinguir uma categoria de outra. Isso ocorre porque os atributos não têm a ver com as propriedades inerentes da categoria em si, mas com a função que desempenha em um contexto particular. Portanto, categorizar uma entidade não é uma questão de saber se ela possui um determinado atributo ou não, mas de considerar o quanto as características da categoria em questão se aproximam das características estruturais e pragmático-discursivas ideais para aquela categoria.
Em função disso, a tendência de uma abordagem centrada no uso – que leva em conta os aspectos dinâmicos e criativos do uso da língua, observando a linguagem como um fenômeno essencialmente adaptativo ao contexto e, conseqüentemente, as extensões de sentido e os movimentos morfossintáticos sofridos pelas estruturas lingüísticas – seria adotar:

a) as noções de gradualidade e continuum
b) o conceito de prototipicalidade,

As noções de gradualidade e continuum nos dariam material para observar que um elemento adverbial qualitativo como a penas (em seu antigo valor de com sofrimento, com dificuldade), pode assumir um sentido de exclusão em frases como Ele comeu apenas um salgado. E ainda que esse movimento de extensão se dá de forma progressiva, ou seja, por meio de processos graduais de extensão, reanálise e univerbação.
Por outro lado, o conceito de prototipicalidade nos diz que nem todos os membros de uma categoria constituem bons exemplos dessa categoria apresentando suas características mais marcantes. Desse modo, um pardal constitui um exemplo melhor de ave do que um pingüim; a laranja é um exemplos melhor de fruta do que um tomate; e o item grifado no exemplo (1).a constitui um melhor exemplo de advérbio do que os itens grifados no exemplos (1).b e (1)c.:

(1) a. Ela falou lentamente.
b. Ele falou alto.
c. Ele falou, consequentemente todos ouviram.

Ou seja, tomado como uma grande categoria os advérbios não são facilmente diferenciáveis dos adjetivos (ex. 1b.) e das conjunções (ex. 1c.). Portanto, há exemplos de advérbios que constituem bons exemplos da classe que funcionam como ponto de referência para distingui-la de outras classes. Assim, advérbios como lentamente, raramente, bem, hoje, ontem, aqui, entre outros, são bons exemplos de advérbios porque apresentam um grupo básico de atributos mais típicos da categoria: são invariáveis, expressam informações circunstanciais, relacionam-se semanticamente ao verbo, etc.
Acredito que seja esse fato o que levou Traugott e Dasher (2005) a afirmarem que os valores lingüísticos devem ser compreendidos como esquemáticos e parcialmente indeterminados, funcionando como uma espécie de “centro magnético”, de caráter prototípico, estabilizado e institucionalizado. Esse centro magnético deve ser interpretado de modo restrito e não como uma entidade completamente discreta.
Mas até aqui estávamos focando a fronteira (que já decidimos ser inexistente ou, pelo menos tênue) entre advérbios e outras classes. E se focalizarmos a categoria internamente? O que têm os circunstanciais, por exemplo, a ver com os qualitativos? O que têm os advérbios aspectuais em comum com os modalizadores? É interessante pensarmos se todos pertencem de fato a uma mesma categoria e, se assim consideramos, qual dentre eles seria o melhor exemplo de advérbio? E como trata-los com base na noção de prototipicalidade?

3 comentários:

Nathalie Pires disse...

Eu acredito que um bom começo para esta busca seja estudar os padrões de polissemia dos advérbios ao longo da trajetória advérbio interno à cláusula > advérbio sentencial > marcador discursivo. Eu teria, porém, uma enorme dificuldade em conseguir analisar também advérbios que não os de modo, que parecem ser os mais prototípicos dentro da "classe" dos advérbios.

Grupo DeG disse...

Nathalie, Eu acho que seria realmente interessante observar os advérbios de modo de acordo com a trajetória advérbio interno à cláusula > advérbio sentencial > marcador discursivo. Neste caso, teríamos uma trajetória de evolução funcional de um uso mais relacionado ao verbo tanto formal quanto semanticamente (por hipótese, mais prototíppico) para usos que cada vez mais se afastam do verbo, ou seja, valores pragmático-discursivos, deixando, assim, de modificar a ação por ele expressa e se afastando de de sua área de atração sintática.
Mas seria interessante refletir acerca da possibilidade de uma trajetória de evolução semalhante para o caso dos advérbios aspectuais (também por hipótese mais prototípicos, já que apresentam relação sintático-semântica mais estreita com o verbo). Seria possível dizer que, na medida em que se afastam do verbo, assumem valores ciircunstanciais que têm funções de caráter mais discursivo? E quais seriam essas funções?

Karen disse...

Gente, não sei nem por onde começar a escrever. Entendo tão pouco do assunto, e o tema se mostra tão complexo, que só de pensar em falar nisso me assusto. Lado bom? Sintam-se representados todos os que tinham vontade de escrever no blog, mas que não sabiam exatamente o que acrescentar. Heheheh

Enfim, com toda essa proposta de análise do advérbio, fiquei pensando no que difere realmente um adjetivo de um advérbio. Tradicionalmente, o adjetivo seria o modificador do nome e o advérbio, do verbo. Mas, considerando as sentenças a seguir, podíamos levantar questionamentos do tipo:

1) Em “esse cara aí”, teríamos um advérbio ou um adjetivo? É advérbio porque não varia? Mas não modifica um nome?
2) Em “A menina chegou apressada”, teríamos advérbio ou adjetivo? É adjetivo porque concorda com o sujeito? Mas semanticamente não pode ser o modo como a menina chegou? Esse exemplo me lembrou o “Ela anda meia cansada”.

Afinal, o que estaria valendo para a classificação?

É nesse ponto que entra a restrição às categorias discretas? Poder-se-ia postular uma categoria prototípica de advérbio, uma prototípica de adjetivo e usos que aparecem mais/menos afastados do centro da categoria prototípica? Há usos que apareceriam na interseção entre as duas categorias prototípicas? Como é complicado definir o que é prototípico!(Pri!!!!!!!!!!!)

Nesse sentido, a gramaticalização poderia dar conta da descrição dos elementos que estão em torno da categoria, na medida em que usos gramaticalizados são decorrentes de processos cognitivos/ de inferências sugeridas que levam à criação de novos usos, de novas linhas em torno do protótipo? Sendo assim, falar em decategorização seria o mais preciso? Essa classificação não se basearia em uma análise de categorias discretas em que o elemento deixa de pertencer a uma categoria mais lexical para pertencer a uma categoria de status mais gramatical na língua?

Bom, é isso!

Karen